O corredor do dormitório estava mais silencioso do que Ariel esperava.
As paredes de pedra clara refletiam uma suave luz azul proveniente de cristais incrustados no teto, como estrelas presas em um céu artificial. Os sons distantes da escola — passos, risos, portas batendo — já não chegavam a este trecho mais isolado.
Ela caminhava distraída, com a mente ainda presa ao estranho encontro no corredor de vidro.
Kael.
A runa.
Ao chegar à porta do quarto, algo diferente chamou sua atenção.
Uma folha estava presa à madeira escura por um pequeno prego encantado, que pulsava levemente.
Ariel franziu a testa e se aproximou.
A caligrafia era firme, antiquada, quase solene.
AVISO A TODOS OS ALUNOS — REGRAS DE CONDUTA E SEGURANÇA
É estritamente proibido atravessar a barreira após as 18h.
Sujeito a punição severa — ou a um destino pior.
Todos os alunos devem estar em seus dormitórios e em repouso até às 20h.
O não cumprimento desta norma resultará em medidas disciplinares.
As áreas restritas permanecem interditadas, independentemente de autorização verbal.
O coração de Ariel deu um salto.
Pior destino.
Ela releu a frase duas vezes.
"Isso é... normal?", murmurou para si mesma.
Um arrepio percorreu suas asas, que se retraíram ligeiramente sob suas roupas.
A barreira.
Ela vira aquela parede translúcida de energia ao redor da escola durante o dia — linda, quase etérea, como uma cortina de luz líquida. Jamais imaginaria que algo tão belo pudesse esconder algo tão ameaçador.
Ela anotou mentalmente as horas.
Seis da tarde
20h
Algo naquela regra parecia menos com organização... e mais com sobrevivência.
Sem pensar muito, ela se virou no corredor.
Lumi precisa saber.
Ariel empurrou a porta do quarto e a fechou atrás de si assim que entrou.
Lumi estava sentada no chão ao lado da cama, encostada na parede, com um livro flutuando em frente ao seu rosto e pequenas partículas de luz girando preguiçosamente ao redor de seus dedos.
Ao perceber a aproximação de Ariel, ela sorriu imediatamente.
"Ei! Você se perdeu de novo hoje?"
"Quase", respondeu Ariel, erguendo a folha. "Isto apareceu à nossa porta. Estas regras... especialmente a da barreira. O que acontece se alguém chegar depois das seis?"
O sorriso de Lumi se desfez — não desapareceu completamente, mas perdeu seu brilho despreocupado.
Ela fechou o livro com um gesto leve.
"Ah... isso."
Ela se levantou lentamente.
"Não é uma regra boba. A barreira não serve apenas para impedir a entrada de coisas. Ela impede que as coisas... entrem em contato conosco, entende?"
Ariel engoliu em seco.
"Que tipo de contato?"
Lumi hesitou por um segundo, escolhendo bem as palavras.
"Criaturas noturnas, ecos mágicos instáveis, remanescentes de coisas antigas que não morreram adequadamente. Depois das seis horas, a energia muda. A barreira entra em modo de contenção total."
"E se alguém atravessá-la?"
Lumi inclinou a cabeça, séria.
"Eles podem não conseguir voltar. Ou podem voltar... diferentes."
Um silêncio pesado se instalou entre eles.
"Já aconteceu antes?", perguntou Ariel em voz baixa.
"Dizem isso. Não oficialmente. Mas todo mundo aqui conhece alguém que conhece alguém que... desapareceu."
Ariel sentiu o estômago se contrair.
"E quanto à hora de dormir?"
"Proteção também." Depois das oito horas, a escola ativa seus selos internos. Os corredores mudam, as portas não levam exatamente para onde deveriam, e algumas criaturas ficam mais... inquietas, como sonâmbulos.
"Ótimo", murmurou Ariel. "Parece um pesadelo arquitetônico."
Lumi soltou uma risadinha curta e sem humor.
"Bem-vindo a Noxhollow."
Em seguida, ela tocou levemente o braço de Ariel.
"Mas relaxem. Se vocês respeitarem os horários, tudo ficará bem. O problema são aqueles que pensam que as regras aqui são apenas sugestões."
Ariel pensou, sem querer, em olhos escuros e respostas evasivas.
Kael não parecia ser exatamente o tipo de pessoa que seguia regras por conforto.
"Obrigada por me avisar", disse ela.
"De nada."
Lumi sorriu mais levemente, tentando aliviar o clima.
"Agora vá descansar, seu pequeno rebelde. Antes que o castelo resolva te engolir inteiro."
Ariel riu, mas enquanto se afastava pelo corredor, sentiu isso claramente:
Noxhollow não era apenas uma escola.
Era quase como uma criatura viva, observando.
Lumi hesitou por um instante antes de se virar para sair da sala.
Então ela deu dois passos para trás.
"Ariel... tem mais uma coisa."
Ariel olhou para cima.
"O que?"
Lumi baixou um pouco a voz, embora só estivessem os dois na sala.
"Há um velho boato circulando aqui na escola. Não consta em nenhum livro. Os professores fingem que não existe."
Ariel sentiu um arrepio percorrer sua nuca.
"Que tipo de boato?"
Lumi respirou fundo.
"Dizem que, há alguns anos, um aluno cruzou a barreira depois das seis horas. Não foi um acidente. Ele queria provar que nada aconteceria."
"Ele voltou?" perguntou Ariel.
"Ele fez."
O silêncio entre eles se estendeu como um fio prestes a se romper.
"Mas... ele não era mais ele mesmo."
Ariel sentiu seu coração acelerar.
"O que você quer dizer?"
"Ele não dormia mais. Não comia. Não sentia dor. Às vezes, ficava olhando para o nada por horas, como se estivesse ouvindo algo que ninguém mais conseguia ouvir."
Lumi apertou os braços dela.
"Dizem que a sombra dele se movia sozinha."
"Isso é impossível..." murmurou Ariel.
"Aqui, nada é impossível. Há coisas proibidas por um motivo."
Ariel engoliu em seco.
"O que aconteceu com ele?"
"Ele desapareceu novamente. Desta vez, dentro da própria escola. Alguns acreditam que a barreira... o chamou de volta."
Ariel sentiu suas asas se eriçarem involuntariamente.
"Desde então, ninguém tenta atravessar depois das seis horas."
Lumi tentou sorrir.
"Pelo menos... ninguém em sã consciência."
Sem que Ariel percebesse, seu olhar se voltou para a grande janela do quarto, onde um brilho distante da barreira ainda podia ser visto como uma linha de luz viva contra o céu que escurecia.
Algo lá fora parecia... errado.
AULA: Navegação Aérea e Correntes Etéreas
Uma aula onde criaturas aladas aprendem a controlar a altitude, a usar correntes mágicas invisíveis (como o vento etéreo), a fazer curvas suaves sem perder o equilíbrio e a manter a formação aérea. Não se trata apenas de "voar lindamente".
A aula foi realizada em um campo natural suspenso, como uma clareira elevada entre penhascos, cercada por colunas de pedra flutuantes cobertas de musgo luminoso.
No centro, um anel de ar cintilante marca o circuito de voo.
Em terra, arquibancadas de pedra natural para os alunos que não voam assistirem à apresentação.
O vento canta suavemente ali, como um sussurro ancestral.
O céu estava absurdamente azul naquele trecho da manhã.
A luz refletia nas colunas flutuantes como se o próprio ar tivesse sido cortado à sua medida. Um círculo de energia translúcida girava lentamente no centro da clareira elevada, marcando a trajetória de voo.
As fadas aqueciam suas asas com pequenos e leves saltos. Os anjos esticavam suas penas com movimentos quase coreografados.
Nas arquibancadas de pedra natural, os alunos que não iam voar se acomodaram para assistir à cena.
Kael estava encostado numa coluna rachada, mastigando distraidamente um pedaço de fruta seca.
Até que ele sentiu algo mudar no ar.
Ele virou o rosto.
Ariel estava alguns metros à frente, ajustando suas asas negras com certo nervosismo.
Ele ergueu uma sobrancelha.
"Interessante..." murmurou para si mesmo.
O professor Seraphiel flutuava suavemente a poucos centímetros do chão, com suas asas brancas abertas com uma precisão quase artística.
"Formem pares. Completem o circuito. Sem quedas repentinas. Sem exibicionismo inútil", anunciou ele.
Os alunos começaram a ir embora.
Ariel hesitou por um segundo antes de impulsionar seu corpo para o ar. Seu voo foi firme, controlado, mas não tão gracioso quanto o dos anjos mais experientes.
Seraphiel observava com atenção crítica.
"Senhorita Montclair", chamou ele. "Suas asas estão desalinhadas na terceira batida. Você está desperdiçando energia."
Ariel se corrigiu imediatamente.
Mesmo assim, a professora franziu a testa.
"Que estranho", comentou ele em voz baixa. "Para um anjo de linhagem tão nobre, eu esperava mais... leveza."
Alguns alunos trocaram olhares discretos.
Uma fada sussurrou algo e riu baixinho.
Ariel sentiu o rosto corar.
Kael cruzou os braços, irritado.
Ela fez a curva final com precisão, aterrissando corretamente.
Mesmo assim:
"Aceitável", disse Seraphiel. "Mas longe do ideal."
Kael soltou uma risada nasalada.
"Eu nem sequer tenho asas, e voo melhor do que esses pavões."
Alguns alunos conseguiram conter o riso.
Seraphiel virou lentamente o rosto em sua direção.
"Algum comentário construtivo, rapaz?"
Kael inclinou a cabeça, com um sorriso torto nos lábios.
"Só admiro o quanto você se preocupa mais com a aparência do que com a eficiência."
Silêncio.
O vento pareceu parar por um segundo.
Seraphiel estreitou ligeiramente os olhos.
"Volte a assistir em silêncio."
Kael fez um gesto exagerado de rendição.
"Claro, professor. Não quero interromper o show aéreo."
Ariel olhou para trás, surpresa.
Seus olhares se cruzaram por um segundo.
Ela tentou conter um sorriso.
Ela falhou.
Meia hora depois, a aula terminou.
Os alunos começaram a se dispersar aos poucos.
Alguns ainda comentavam a apresentação, outros recolhiam materiais ou batiam as asas para aliviar o cansaço. A brisa suave na clareira carregava penas soltas e partículas de luz.
Ariel pousou com cuidado e recolheu as asas junto ao corpo, respirando fundo.
Seu coração ainda estava acelerado.
Ao se virar para caminhar em direção à saída, ela quase esbarrou em Kael, que estava encostado na mesma coluna de pedra de antes.
Ela hesitou por um segundo.
Mas então ela endireitou a postura.
"Obrigada...", disse ela educadamente. "Pelo que você disse. Você não precisava me defender."
Kael deu de ombros.
"Não era para te defender. Era apenas... sinceridade."
Ela inclinou a cabeça, curiosa.
"Realmente?"
"Sim." Ele a analisou rapidamente, como se tentasse entender algo que não compreendia totalmente. "Para ser sincero, não sei nada sobre voar. Para mim, qualquer pessoa que consiga decolar sem cair é impressionante. Mas você voa bem. Dá para perceber quando alguém está no controle."
Ariel piscou, ligeiramente surpresa.
"Você acha mesmo?"
"Sim." Um canto da boca dele se curvou num meio sorriso. "Mesmo quando aquele pavão de terno estava implicando com você."
Ela não conseguiu conter um risinho discreto.
"Ele está exigindo..." ela tentou justificar, mesmo sem muita convicção.
Kael ergueu uma sobrancelha.
"Pessoas exigentes geralmente não escolhem sempre a mesma pessoa para corrigir."
Ariel ficou em silêncio por um instante.
Então ela murmurou:
"Talvez você tenha razão."
Houve uma breve e confortável pausa.
O vento soprou entre eles, levantando uma mecha do cabelo de Ariel.
"Enfim..." disse Kael, dando um passo para trás. "Continue assim. Você não deve nada a ninguém aqui."
Ele começou a se afastar.
Ariel o observou por um segundo antes de responder:
"Obrigado. De verdade."
Kael ergueu a mão num gesto de desdém, sem olhar para trás.
"De nada, anjo de asas rebeldes."
Ela ficou parada, sentindo um calor estranho no peito — não por vergonha dessa vez, mas por algo novo.
Curiosidade.
