Após mais uma hora discutindo os detalhes dos setores defensivos da milícia e coisas da Terra, Arthur se despediu. Caminhou pelos corredores pouco iluminados do castelo, onde as tochas bruxuleantes projetavam longas sombras dançantes contra as paredes de pedra.
Ao chegar aos seus aposentos, encontrou o quarto banhado por uma penumbra confortável, ainda que primitiva. Uma única vela tremeluzia sobre a mesa de cabeceira, sua chama dançando na corrente de ar. Arthur sentou-se na beira de sua cama de palha, os talos secos estalando sob ele. O tédio que ele vinha reprimindo o dia todo começou a infiltrar-se em sua mente como uma névoa fria.
Ele havia cumprido suas obrigações do dia. Verificou os registros de Barov em busca de discrepâncias, ajustou a logística de suprimentos com Karl e alertou Roland sobre as bestas lobo-tartaruga e leão voador que poderiam aparecer mais tarde no inverno. Agora, ele era apenas um passageiro no tempo, aguardando o desenrolar da trama.
Ele se lembrou da conversa que teve com William no dia anterior. William se gabou — e com razão — de ter ganhado 150 créditos por alterar o curso da história de forma significativa. Ao salvar o Capitão Greyhound, Erik e Trevor, William não só consolidou seu lugar no exército, como também ganhou o "Poder" de ver os status dos figurantes.
Arthur suspirou e acenou com a mão no ar, manifestando sua própria interface azul translúcida. Um brilho suave iluminou seu rosto.
[Saldo atual: 300 créditos]
Os números o encaravam, silenciosos e promissores.
Arthur sabia que não era como William. Ele não tinha a "Síndrome do Protagonista" que levava as pessoas a se lançarem na batalha com espada e grito de guerra. Ele era um homem de sistemas, arte, lógica fria e implacável. A ideia de estar na linha de frente, sentindo o cheiro fétido de sangue demoníaco e desviando de garras, o enchia de um temor muito racional. Ele não era um artista marcial. Ele era um estrategista.
"Mas até um estrategista como eu, precisa de um trunfo na manga", pensou ele, com o coração começando a acelerar.
"Se eu não puder ser um guerreiro, serei um mago que luta à distância."
Ele analisou seu atributo principal: Telecinese. No Nível 1, era pouco mais que um truque de salão. Ele conseguia jogar uma moeda para o ar ou empurrar uma colher sobre uma mesa quando se concentrasse o suficiente. Era inútil em um combate e ainda mais na Batalha da Vontade Divina.
"Mas e se eu investir tudo em Poder Mágico?"
Sua mente fervilhava de possibilidades. No mundo de Release That Witch, a magia era uma manifestação da vontade filtrada pelo corpo. Se ele aumentasse drasticamente sua capacidade, sua telecinese não moveria apenas colheres — moveria casas inteiras. Ele poderia criar barreiras invisíveis para se proteger, quebrar o pescoço de híbridos a cinco metros de distância, ou até mesmo se elevar aos céus. Ele poderia se tornar uma bateria de artilharia de um homem só.
A excitação, pura e eletrizante, o invadiu. Ele abriu a Loja de Atributos. Cada ponto custava 40 créditos.
Arthur não hesitou. Ele não estava interessado em uma composição física equilibrada. Ele queria o ápice. Investiu 280 créditos, aplicando 7 pontos diretamente em Poder Mágico.
No instante em que confirmou a transação, a tela azul desapareceu, substituída por um pulso ofuscante de luz dourada que só ele conseguia ver.
Arthur arquejou, as costas se arqueando enquanto uma torrente de energia irrompia de seu plexo solar. Não era doloroso, mas era avassalador — como uma imensa ventania. A energia percorreu seu sistema nervoso com precisão, reconfigurando seu cérebro e expandindo seu "músculo mental".
Sua visão se aguçou. A chama bruxuleante da vela no canto da sala de repente parecia um objeto físico que ele poderia tocar com a mente. Ele podia sentir o peso do ar, a vibração do vento contra as pedras do castelo e a pulsação sutil do próprio edifício.
Sua telecinese, antes um fio frágil, agora era um cabo grosso e vibrante de pura intenção. Ele estendeu a mente em direção a uma pesada cadeira de madeira do outro lado da sala. Sem fazer barulho, a cadeira se elevou um metro e meio no ar, pairando com a mesma firmeza como se estivesse parafusada ao teto. Ele não sentiu nenhum esforço. Poderia ter segurado dez delas.
Arthur olhou para as próprias mãos, que tremiam levemente com a enorme quantidade de poder que emanava. Ele não era mais apenas um consultor. Nem um mero observador da ascensão de Roland ao poder.
Ele agora era uma variável que a história deste mundo jamais havia previsto.
À medida que o brilho dourado se dissipava de seus olhos, um sorriso malicioso surgiu nos lábios de Arthur. Os Meses dos Demônios estavam chegando, mas, pela primeira vez, ele não se preocupava com o "Protagonista" William levando toda a glória.
Arthur acabara de igualar as condições de jogo, e fez isso sem nem ter que pegar em espada.
O silêncio de seu quarto de paredes de pedra parecia completamente diferente agora. Não estava vazio; era uma tela, ricamente texturizada e repleta de potencial cinético. Cada objeto, do atiçador de ferro junto à lareira fria aos pesados livros-razão encadernados em couro empilhados sobre sua mesa, parecia conectado ao seu cérebro por fios invisíveis e diáfanos. Ele não apenas os via mais; sentia sua massa, seu centro de gravidade e a quantidade exata de toque psíquico necessário para manipulá-los.
Ele baixou lentamente as mãos, deixando os tremores físicos diminuírem, e começou analisar a profunda mudança que ocorreu em sua alma após transmigrar.
Por que a telecinese?
Quando o sistema analisou sua psique pela primeira vez para determinar seu atributo inicial, não lhe concedeu a piromancia bruta e destrutiva que tantos protagonistas de fantasia almejavam. Ele não lhe deu os aprimoramentos físicos extraordinários de um cavaleiro, nem a manipulação elemental do vento ou da água. Isso lhe deu o poder da mente.
Arthur fechou os olhos e se permitiu um raro momento de nostalgia, mergulhando nas memórias de sua vida passada — uma vida de telas brilhantes, jogos de estratégia e enciclopédias digitais. Ele percebeu que sua profunda afinidade por esse poder específico provavelmente se originava de uma obsessão infantil profundamente enraizada.
Sua mente evocou a imagem majestosa e inspiradora de um leviatã branco com detalhes azul escuro pairando sobre um oceano tempestuoso, suas asas enormes capazes de rasgar as nuvens. Lugia. O Guardião dos Mares. E então, mudando a memória, ele visualizou uma entidade elegante e alienígena composta de estruturas retorcidas semelhantes a DNA em tons de laranja e azul, uma criatura de lógica pura e cristalina com formas mutáveis. Deoxys.
Essas não eram apenas criaturas fictícias para ele; eram seua pokémons favoritos. Ambas eram entidades supremas definidas por seus tipos Psíquicos. Eles não dependiam de força bruta e muscular. Impunham sua vontade sobre a própria realidade. Lugia podia achatar uma paisagem inteira com uma explosão de pressão invisível, uma aplicação elegante de peso psíquico, colocando os três pássaros lendários para dormirem. Deoxys podia desmantelar uma ameaça com precisão cirúrgica, manipulando matéria e gravidade com a mesma facilidade com que respira.
Arthur havia passado centenas de horas analisando a história, as estatísticas e a mecânica ficcional deles. Ele sempre romantizara a ideia de um poder completamente invisível, uma força que exigia disciplina mental absoluta em vez de mero esforço físico. Agora, tudo fazia sentido. O sistema de transmigração, acessando o âmago de sua personalidade, suas preferências e suas maiores paixões, manifestarou essa afinidade. Seu amor pelos dois pokémons psíquicos essencialmente pré-programou sua alma para a telecinese. Ele não estava apenas movendo objetos; estava canalizando a mesma graça conceitual e domínio aterrador que sempre admirou.
Ao abrir os olhos, Arthur decidiu que era hora de explorar os limites dessa nova realidade.
Ele olhou para a pesada cadeira de madeira ainda suspensa no ar. Com a força de vontade, fez-a girar lentamente. A princípio, a cadeira girou em torno de um eixo invisível. Então, ele aumentou a pressão mental. A cadeira se transformou num pequeno tornado localizado de carvalho e sombra, girando tão rápido que o ar assobiava ao seu redor. Com um estalo mental seco, ele a parou bruscamente. Inércia zero. Oscilação zero. Ela ficou ali suspensa, perfeitamente imóvel, desafiando as leis da física com absoluto escárnio.
Impressionante, pensou ele, mas ainda precisava saber seus parâmetros de combate. Objetos são uma coisa. Carne, osso e espírito de luta são outra.
Ele fechou os olhos e mentalmente simulou o peso, a resistência e a tensão muscular de um homem adulto, totalmente desenvolvido e endurecido pela batalha. Imaginou um dos guardas do castelo — oitenta quilos de carne, osso, couro e cota de malha — investindo contra ele com uma espada desembainhada. Será que ele conseguiria detê-lo?
Arthur estendeu sua mente em direção à enorme e imóvel cama de dossel no centro do seu quarto. Ele imaginou os quatro robustos postes de madeira como os membros de seu agressor. Ele não tentou levantar a cama; tentou imobilizá-la. Aplicou uma pressão telecinética esmagadora e multidirecional ao redor dos grossos pilares de madeira.
O som da madeira rangendo ecoou pela sala. O denso carvalho começou a estilhaçar sob a morsa invisível. Ele apertou com mais força, visualizando a constrição dos pulsos de um homem, o travamento das rótulas, a paralisia absoluta da coluna vertebral. A imensa quantidade de Poder Mágico que agora possuía tornava tudo aquilo trivial. Percebeu, com uma onda arrepiante de clareza, que poderia facilmente imobilizar não apenas um, mas talvez três ou quatro homens adultos simultaneamente. Se um cavaleiro o atacasse, Arthur não precisaria se esquivar. Simplesmente o congelaria no ar, travando suas articulações com tanta força que seu próprio impulso quebraria seus ossos.
— "A precisão de Deoxys", murmurou Arthur, um sorriso frio se formando na escuridão. "A capacidade de deter a vida instantaneamente sem derramar uma gota do meu próprio sangue."
Mas a imobilização era uma manobra defensiva. Arthur precisava de mobilidade. Ele precisava saber se conseguiria realizar a fantasia suprema: voar sem auxílio.
Ele ficou de pé no centro da sala, esvaziando a mente de todas as distrações. Imaginou a energia telecinética não como mãos se estendendo, mas como uma plataforma se formando sob suas botas e um arnês envolvendo seu torso com segurança. Respirou fundo e empurrou o chão de pedra para baixo com a mente, enquanto simultaneamente puxava seu próprio corpo para cima.
Por um segundo aterrador e de tirar o fôlego, ele sentiu uma onda de vertigem intensa. Seu estômago revirou quando a lei fundamental da gravidade perdeu o controle sobre seu corpo.
Suas botas deixaram silenciosamente o chão de pedra.
Ele estava pairando. Quinze centímetros. Um pé. Três pés.
Arthur abriu os braços para se equilibrar, embora logo percebesse que o equilíbrio físico era irrelevante. Seu centro de gravidade era ditado inteiramente por sua mente. Ele se impulsionou para cima, flutuando em direção ao teto abobadado de seus aposentos. Uma profunda sensação de euforia o invadiu. Foi uma ascensão silenciosa e sem atrito.
Contudo, à medida que sua cabeça se aproximava das vigas, ele sentiu a "aderência" começar a se desfazer. Não era que seu Poder Mágico estivesse se esgotando; em vez disso, era uma limitação de seu raio de ação atual. Ele compreendeu instintivamente a física de sua nova magia. Sua telecinese exigia uma âncora, uma proximidade física a uma superfície maciça — como o chão ou uma estrutura pesada — para se impulsionar. Através de cuidadosos cálculos mentais, ele calculou a distância.
Cinco metros.
Ele conseguia realizar voo telecinético, mobilidade tridimensional verdadeira e irrestrita, mas apenas até uma altitude de aproximadamente cinco metros a partir de uma superfície sólida. Se tentasse ultrapassar esse limite imaginário, a ligação psíquica enfraqueceria e ele despencaria.
"Cinco metros é mais do que suficiente", argumentou Arthur, pairando confortavelmente perto do arco de pedra do teto. "Isso me coloca fora do alcance de armas brancas comuns. Permite-me contornar paredes, armadilhas e terrenos difíceis. Eu sou um fantasma."
A vontade de testar isso no mundo aberto tornou-se insuportável. Os confins de seu quarto eram sufocantes demais para um poder que exigia ar livre. Ele precisava caçar. Precisava aplicar essa força letal a um organismo vivo para realmente entender suas capacidades antes que a guerra de verdade começasse.
Arthur flutuou lentamente de volta ao chão. Ele se moveu em direção às grandes e pesadas venezianas de madeira de sua janela. Não usou as mãos. Uma suave onda de força telecinética destravou o gancho de ferro, e as venezianas se abriram para fora sem um único rangido.
O ar noturno de Border Town invadiu o local, cortante e gélido. Trazia o cheiro de fumaça de lenha, terra úmida e o frio inconfundível do inverno que se aproximava. Lá fora, a cidade era uma colcha de retalhos de sombras escuras e luar prateado. Algumas brasas moribundas brilhavam nas fogueiras de rua, mas, de resto, o mundo dormia.
Era perfeito. Como era plena noite, ninguém olharia para cima. Nenhum plebeu, nenhum miliciano em patrulha e certamente nenhum nobre jamais esperaria ver um homem voando pelo céu escuro. Naquela época, o céu noturno pertencia aos pássaros e aos deuses. O conceito de vigilância ou assassinato aéreo era completamente inviável.
Arthur saiu para o parapeito da janela. Olhou para o pátio lá embaixo, uma queda de doze metros que facilmente quebraria as pernas de qualquer homem normal.
Ele não hesitou. Deu um passo para o vazio.
Em vez de cair, a plataforma invisível o amparou imediatamente. Ele estabilizou sua altitude, mantendo-se exatamente a cinco metros acima dos telhados inclinados de telha dos anexos inferiores do castelo.
"Vamos cavalgar o vento", ele sussurrou.
Ele se inclinou para a frente mentalmente, alterando os vetores telecinéticos. Disparou para a frente, deslizando sobre as paredes do castelo com uma suavidade de tirar o fôlego. A sensação do vento frio passando por seu rosto, rasgando seus cabelos e sua capa, era inebriante. Ele estava voando. Ele estava realmente voando.
Ele sobrevoou o espaço aéreo acima de Border Town com crescente confiança. Manteve um perfil baixo, deslizando rente aos telhados de palha do bairro dos plebeus. Abaixo dele, as ruas lamacentas e sinuosas estavam completamente desertas. Passou por cima de dois milicianos que patrulhavam a área com tochas. Eles conversavam despreocupadamente sobre suas rações, totalmente alheios ao espectro que pairava a apenas cinco metros acima de suas cabeças. As sombras da noite engoliram Arthur por completo.
Em poucos minutos, as casas de madeira dilapidadas e a muralha de pedra incompleta da defesa de Roland desapareceram atrás dele. Diante dele, erguia-se a silhueta imponente e recortada da Floresta Oculta. — "Agora vem o desafio de verdade!" — murmurou Arthur confiante.
